Bipolaridade divina
Outro dia um professor de literatura afirmou na aula que cada um tinha os seus deuses. Reprovações instantâneas e resmungos discretos na sala.
Mas o velhote está mesmo certo. Deuses são altamente convenientes. Assumem diferentes funções, de acordo com a nossa necessidade. Se o banco do réu é ocupado por nós, logo fazemos da divindade o nosso advogado. Se estivermos no lugar de vítima que deseja saborear a punição do crime que contra nós foi executado, Deus é dos promotores o melhor.
Veja bem como o soberano pode adquirir diferentes personalidades, além dessas que atuam no tribunal celestial: médico, ativador de fenômenos naturais, deflagrador de guerras santas, fundo de investimento…
Óbvio, amigos, os três parágrafos acima é só uma pitada de ironia para nos lembrar de que os deuses que o meu professor mencionou são fabricados por nós mesmos.
Mas, o que me preocupa mesmo é a descrição/interpretação bipolar que andamos a fazer acerca da punição divinal. David Bazan, antigo vocalista do Pedro the Lion, discute as nossas dúbias conclusões acerca de graça e pecado no seu novo disco, Curse Your Branches. Numa das músicas ele diz:
“You used to feel like the prodigal returning / but now you hate what you’ve made / and you want to watch it burn.”
Quem poderia agir de forma tão diferente diante de uma mesma transgressão, senão nós, humanos que julgam de acordo com humor e conveniência?
Levando a questão além, aos céus: trata-se da mesma pessoa o pai que festeja o retorno do filho pródigo e o juiz que lança no inferno?

1 comment
É Jaiminho (e já denunciando seu apelido das antigas hahahaha). As incoerências divinais que nos consomem…
Dê o seu pitaco